É quase o topo do monte que dá para a liberdade. Em um suspiro, contudo, o guarda esbaforido fatalmente torna a alcançá-lo. Esse é o pesadelo que tem se repetido nas últimas noites em que o estudante Phelipe Moura voltou a dormir na própria casa, na cidade de São Paulo, após passar três meses em um complexo de trabalho forçado, em Mianmar, no Sudeste da Ásia.
No cativeiro, localizado em uma selva do país asiático, Phelipe era obrigado a se passar por uma modelo para aplicar golpes na internet em homens idosos. Ainda no primeiro dia de trabalho no complexo, ele recebeu um script com todas as falas que deveria decorar para atrair as vítimas. Segundo relata, os expedientes duravam até 22 horas por dia.
“Oi, meu nome é Lin Kiki. Tenho 30 anos e sou designer de moda. Tenho uma loja online no Wish e uma loja física em Bangkok”, diz Phelipe, ao lembrar a maneira como a qual iniciava as conversas online. “A gente tinha uma meta diária de arrecadação. Não importava quanto tempo eu ficasse trabalhando. Se eu não batesse essa meta, seria punido”, conta ao Diario de Pernambuco.
O brasileiro relata que, em mais de uma ocasião, foi torturado. “Na primeira vez, me obrigaram a fazer cem agachamentos em cima de uma plataforma cheia de pregos. Na segunda, foram 500 e na terceira, mais 700 agachamentos”, afirma. Phelipe também presenciou pessoas sendo torturadas com eletrochoques e espancadas. “Teve um rapaz que passou 17 dias sendo espancado e levando choques. Ele foi colocado algemado a uma cama no meu dormitório, só que eles tiraram o colchão. Eu chegava para dormir e a cena era essa”, lamenta.
Phelipe conta que morava no Uruguai havia um mês quando recebeu uma proposta de emprego falsa pelo Telegram. Ele supostamente receberia US$ 2 mil (o equivalente a R$ 11 mil) para liderar um call center brasileiro na Tailândia. “Não achei estranho. Eu já tinha trabalhado em Dubai, Laos, Filipinas e até na própria Tailândia. Quis voltar também porque é um país bonito, com um custo de vida barato”, conta.
Durante o processo seletivo, Phelipe foi submetido a entrevistas em inglês e chinês e até a uma conversa com os supostos Recursos Humanos (RH) da empresa. “Eles pagaram minha passagem e cheguei na Tailândia no dia 14 ou 15 de novembro, não me lembro ao certo”, comenta.
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Luckas Viana dos Santos (à esquerda) e Phelipe foram resgatados juntos (Acervo Pessoal) |
Tráfico internacional
Após o desembarque em Bangkok, um carro a serviço da suposta empresa apanhou Phelipe no aeroporto. “Como cheguei de madrugada também pagaram o hotel onde passei a noite, em Mae Sot”, relata. As coisas começaram a ficar estranhas na manhã seguinte.
“Eles foram me buscar e eu troquei de carro três vezes. Desde o primeiro carro, o motorista parecia bem nervoso, ficava colocando umas músicas pra disfarçar. Fui conversando com meus amigos durante a viagem, no celular, falando que a viagem estava demorando demais”, lembra.
O deslocamento acabou em um campo de terra. Na beira de um rio, homens armados ordenaram que Phelipe entrasse em um bar. “Naquele momento, percebi que estava em Mianmar, porque dava para perceber que eles falavam birmanês. Ali eu entendi que tinha me dando muito mal, porque sei um pouco sobre a situação de Mianmar”, lembra.
Em guerra civil desde maio de 2021, o país é conhecido por abrigar diversos campos de trabalho forçado. “Quando cheguei, tomaram meu celular, me deram comida e fui para um dormitório, onde dormi por cerca de oito horas com mais seis pessoas. Depois disso, fui levado para o escritório pelo tradutor e pelos guardas. No primeiro dia, trabalhei dez horas. Nos dias seguintes, a média era de 17 a 22 horas de trabalho”, lembra.
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Imagem mostra resgate de pessoas forçadas a trabalhar (Reprodução/Redes Sociais) |
Resgate
Exausto, Phelipe resolveu aderir a um plano de fuga improvisado pelas próprias vítimas de trabalho forçado. Ele soube da estratégia através de Luckas Viana dos Santos, outro brasileiro resgatado do local: o grupo entraria em confronto físico com os guardas, atravessaria quatro montes, correria por dois quilômetros e atravessaria um rio em busca da fronteira com a Tailândia.
“De 60 pessoas, só três quenianos conseguiram escapar. Eu fui pego por um guarda, ainda no primeiro monte”, lembra o estudante. Àquela altura, os trabalhadores já estavam em contato com a ONG The Exodus Road, especializada em combater e resgatar vítimas de tráfico de pessoas. Foi através de um acordo entre a organização e o Exército Budista Democrático Karen (DKBA), um grupo armado que integra uma máfia paralela em Mianmar, que Luckas e Phelipe conseguiram fugir do complexo, com outras 85 pessoas de diferentes nacionalidades.
“Ainda estou tentando processar tudo que aconteceu. Desde que cheguei no Brasil, não consegui dormir direito nem com calmantes. Tenho tido crises de ansiedade e os pesadelos são constantes”, diz Phelipe, que está tendo acompanhamento de uma psicóloga.
Aos poucos, o jovem tem reencontrado amigos e familiares. Ele confessa, no entanto, que ainda segue em busca de si mesmo. “O Phelipe sonhador continua existindo, mas ainda está preso. Esperando uma brecha para se libertar. Eu ainda acordo apressado para trabalhar, pensando naquela rotina. Na minha cabeça, a prisão continua”, conclui.