Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (22) revela uma mudança importante na percepção dos latino-americanos sobre as potências globais. Em um cenário internacional marcado por incerteza, conflitos e enfraquecimento das normas multilaterais, a China foi o único país a ampliar seu prestígio na América Latina em relação ao levantamento anterior, realizado em 2022. Os dados foram publicados pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, pela revista latino-americana Nueva Sociedad e pelo grupo Diálogo e Paz, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.
O estudo ouviu 12 mil pessoas com oito ou mais anos de escolaridade em dez países da região — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela. A implementação metodológica ficou a cargo da consultoria chilena Latinobarômetro, com margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos,
Os resultados mostram que a China foi a única entre sete potências avaliadas a ganhar prestígio no intervalo de quatro anos. Quando perguntados sobre seus países de preferência, 24,2% dos latino-americanos citaram o país asiático. Embora a China apareça na quinta posição geral, ela registrou alta de 6 pontos percentuais desde 2022.
À frente de Pequim aparecem Espanha, com 30,8%, e Estados Unidos, com 30,6%, além de Alemanha, com 30,2%, e França, com 24,9%. Todos esses países, porém, sofreram quedas significativas, em alguns casos de dois dígitos percentuais. Reino Unido, com 20,8%, e Rússia, com 10,1%, também perderam força na percepção regional.
China cresce como modelo de desenvolvimento
Se no quesito prestígio geral a China já aparece em ascensão, no campo do desenvolvimento sua posição se torna ainda mais forte. Segundo o levantamento, 36,1% dos entrevistados apontaram o país asiático como referência de desenvolvimento, superando os Estados Unidos, que ficaram com 31,5%.
Nesse indicador, a China avançou 7 pontos percentuais em relação a 2022, enquanto os EUA registraram queda de 13 pontos percentuais. Japão, com 31,8%, e Coreia do Sul, com 15,8%, também melhoraram sua percepção, ainda que em ritmo mais moderado.
A pesquisa indica que a China é vista como liderança especialmente nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Já os Estados Unidos seguem reconhecidos por seu peso econômico e militar, mas enfrentam níveis mais altos de desconfiança e avaliações negativas sobre sua liderança política.
A pesquisadora Monica Hirst, que colaborou na elaboração do estudo, resumiu essa mudança de percepção em declaração à Folha. “A América Latina está olhando mais positivamente para a Ásia do que para o Ocidente”, afirmou.
Ela também destacou um ponto central da imagem chinesa na região. “A China não aparece como possível ameaça ou fator de tensão nas visões que a região tem sobre os países do mundo. [No caso dos países asiáticos] não há dúvida de que se trata de uma capacidade tecnológica para âmbito civil, não para âmbito militar”, disse.
Mundo mais hostil e menos regulado
Além de medir a reputação das potências, o levantamento captou o clima de apreensão que atravessa a região. Para a maioria dos entrevistados, o mundo está mais instável, mais conflagrado e menos submetido a regras internacionais.
A incerteza foi o sentimento predominante, citada por 40% dos entrevistados. As percepções negativas sobre a situação global chegaram a 32%, acima das positivas, que somaram 22%. Outros percentuais completam o quadro de mal-estar internacional.
Quando questionados sobre a direção do mundo, 78% disseram discordar de que ele esteja no rumo correto. Apenas 16% afirmaram concordar, enquanto 6% não responderam.
A percepção de agravamento geopolítico também aparece de forma contundente em outras respostas. Segundo a pesquisa, 70% concordam com a frase “Começou uma era de guerras e de conflitos no mundo”. Já 53% disseram concordar que “Leis e normas internacionais já não são relevantes”.
O retrato que emerge é o de uma América Latina que enxerga o sistema internacional como mais duro, menos previsível e crescentemente orientado pela força, e não pela cooperação.
Guerras, tensões e desgaste do Ocidente
As entrevistas foram realizadas entre 3 de outubro e 18 de novembro do ano passado. Ou seja, ocorreram antes de episódios posteriores que agravaram ainda mais a percepção de instabilidade, como a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, em janeiro, que resultou no sequestro do então ditador Nicolás Maduro, e os ataques americanos em conjunto com Israel contra o Irã, iniciados em fevereiro, com reflexos sobre os preços globais de energia.
Ainda assim, o ambiente internacional já era de forte tensão. Os Estados Unidos e países europeus como Espanha, Alemanha e França integram a Otan, aliança militar ocidental que apoia a Ucrânia desde a invasão russa de fevereiro de 2022.
Washington também é o principal aliado de Israel, cujas ações após o atentado terrorista do Hamas, em outubro de 2023, desencadearam uma grave crise humanitária na Faixa de Gaza e em países vizinhos. Esse pano de fundo ajuda a explicar o desgaste reputacional do Ocidente em diversas frentes.
Trump lidera a desconfiança na região
No levantamento, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, aparece como a liderança que mais desperta desconfiança entre os latino-americanos ouvidos. Ele foi citado por 25,3% dos entrevistados, muito à frente do presidente da Rússia, Vladimir Putin, com 12,3%, e de Nicolás Maduro, com 4,9%.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mencionado por 1,3% dos entrevistados.
Monica Hirst foi direta ao avaliar o impacto do chefe da Casa Branca na imagem dos EUA. “Não há dúvida de que Trump teve um impacto devastador em termos reputacionais”, afirmou à Folha.
Segundo o estudo, os latino-americanos — especialmente no México e nos países da América Central — avaliam de forma negativa os efeitos das políticas de Trump sobre o mundo. Isso contribui para a deterioração da imagem dos Estados Unidos na região, inclusive em dimensões que historicamente lhe eram favoráveis.
Democracia e poder brando em queda
Os Estados Unidos também registraram, ao lado da Venezuela, a maior retração na categoria de avaliação da democracia no mundo, com perda de 1,5 ponto percentual para ambos.
Em uma escala de 1 a 10, na qual 1 significa que um país “não é considerado uma democracia” e 10 corresponde a uma “democracia plena”, os EUA receberam nota 6,2. A Venezuela ficou com 2,5.
A China, por sua vez, marcou 4,4 e apresentou crescimento de 0,4 ponto percentual em relação ao levantamento de 2022. O dado indica melhora relativa de sua imagem também nesse campo, ainda que permaneça abaixo das potências ocidentais na percepção clássica de regime democrático.
A Europa, segundo a pesquisa, continua sendo vista como referência em direitos humanos, assistência humanitária e proteção ambiental. No entanto, seu chamado poder brando perdeu vigor. Também se enfraqueceram as percepções sobre sua autonomia estratégica e sua relevância como modelo de desenvolvimento e integração.
De acordo com o levantamento, a cooperação entre América Latina e Europa já não é percebida como algo necessariamente estratégico ou concreto. Esse enfraquecimento ajuda a explicar por que, mesmo preservando atributos positivos, os europeus também perderam reputação no imaginário regional.
América Latina olha mais para a Ásia
O principal recado da pesquisa é que a América Latina está revendo seus referenciais internacionais. Em meio à crise de legitimidade do Ocidente e à percepção de um mundo mais violento e menos regulado, a Ásia ganha espaço como polo de estabilidade tecnológica, capacidade produtiva e horizonte de desenvolvimento.
A ascensão da China nessa percepção não significa apenas melhora de imagem. Ela reflete uma mudança mais profunda na forma como os latino-americanos avaliam poder, progresso e influência global.
Ao mesmo tempo, o desgaste dos Estados Unidos e da Europa sugere que o velho eixo atlântico já não exerce o mesmo fascínio político, econômico e simbólico sobre a região. O cenário desenhado pela pesquisa aponta, assim, para uma reconfiguração da opinião pública latino-americana diante da disputa por influência no sistema internacional.